quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Eliezer, assim como o Velho Lua, escreve 
com sons a crônica do povo nordestino


Alagoano Eliezer Setton faz canção em 
homenagem ao centenário de Gonzagão

Numa noite dessas do último junho, dormindo, Eliezer Setton teve um sonho. Sonhou que estava ao lado do cantor e compositor Flávio José e de sua sanfona, e disse a ele: “Vamos fazer uma música?”. Surgiu daí a inspiração para Treze do doze do doze, nova música de Eliezer que homenageia o centenário de Luiz Gonzaga, comemorado nesta quinta-feira (13), por todo o país.
“Levantei com as duas primeiras frases da música na cabeça e gravei no iPhone. Fui pro estúdio e gravei pra fazer a divulgação e ‘patentear’ o registro”, disse Eliezer à reportagem.
A música carrega toda a poesia, sensibilidade e força, características marcantes no canto poético de Eliezer que, assim como o Velho Lua, escreve com sons a crônica do povo nordestino. “Hoje/ Que o mundo inteiro respeita o Forró/ Hoje/ Que em noite de ‘Lua’ ninguém fica só/ Hoje/ A Nação Forrozeira em festa acordou/ Hoje/ O Brasil de Gonzaga triunfou”, diz um verso da canção.
“Eu nem sabia que a música ia desembocar no centenário. Foi surpresa pra mim quando eu vi. Fiz a única música que aborda explicitamente a data do centenário pelo menos eu não ouvi nenhuma outra aí”, comentou.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Sávio de Almeida escreve cordel tendo o Rei como tema

Sávio de Almeida brinca com suposto 
namoro de alagoana com Roberto Carlos 
e escreve poema e peça de teatro

Até o historiador, escritor e professor Sávio de Almeida se rendeu à polêmica em torno da pergunta que está provocando a imaginação dos alagoanos: quem será, enfim, a namorada de Roberto Carlos?
Publicado na sua página em um site de relacionamento, o professor Sávio aproveitou o tema e escreveu o poema “O filho do rei Roberto”. Nos divertidos versos, Sávio sugere, com o característico humor da literatura de cordel, que graças a sua nova paixão, o cantor compôs uma canção intitulada “Amor e sururu com tomate e pimentão”.
Em sua página, Sávio ainda revela que está criando um texto de teatro onde explora a vinda do rei e do seu iate ao mar de Alagoas. Na peça “As aventuras do rei no astral de Maceió” Roberto Carlos dança Chegança (dança folclórica do Nordeste brasileiro) e come uma peixada. Confira o poema e trecho da cena da peça de teatro.

O filho do rei Roberto

A quem namora o Roberto?
Este é um grande mistério!
Será alguém ainda viva
Ou alma no cemitério?
Será que é pagã
Ou já tirou batistério?

Sei que o rei Roberto
Compôs outra canção;
Chama-se Amor e Sururu
Com Tomate e Pimentão

E dizem que vai nascer
Um caranguejo anão.



As aventuras do Rei no astral de Maceió

Peça em um ato.

Cena I

Rubrica - (O narrador fala compassadamente e em tom de Jornal Nacional)

O rei do mar chegou
Numa bela madrugada;
Ele e seu belo iate
Mais a sua marujada;
Todos vindos para a Chegança
Do Mestre Pedro Murada!

Rubrica - (O Rei aparece na boca do palco, entrando misteriosamente; começa a dançar Chegança e Narrador continua)

O Rei gostava muito
De dançar uma Chegança;
E gostava de ficar
Onde a onda balança;
O vento no seu cabelo
E zanzando com sua pança.

E já desceu cantando
Virado na cerebrina!
Que tudo vá pro inferno!
O iate quase empina,
E seu calhambeque ficou
Apitando na buzina.


Livro reúne coletânea de contos resultado 
de oficinas de leituras organizadas pela poetisa 
e escritora alagoana Arriete Vilela



Uma menina e a descoberta da sexualidade; o funeral de Dona Filó; Mariana e seu mundo interiorano; as lembranças de um homem feito; Ágata e o piano. Universos imaginários pessoais de apaixonados pela literatura que, expressos em papel, criaram vida e reunidos, viraram livro. Para além da leitura é fruto das visões particulares de profissionais das mais diversas profissões, diferentes idades e origens, mas com um interesse em comum: a leitura e a escrita literária.
Resultado dos Grupos de Leitura e Escrita Criativa – organizados pela poetisa e escritora Arriete Vilela –, Para além da leitura é uma coletânea com textos do psicólogo Adalberto Souza, da jornalista Clarissa Veiga, da bailarina Eliana Cavalcanti, da psicanalista Gilvaneide Mota, do funcionário público Hamilton Lessa, da médica e professora Janira Lúcia A. Couto, da advogada Marialice Loureiro, da especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Mônica Oliveira, e da engenheira química Patrícia Gatto.
Com apresentações de Otávio Cabral e Maria Heloisa Melo de Morais, a antologia traz ao todo 17 contos que, segundo a professora Maria Heloisa, são um exemplo claro de que escrever é um exercício constante. “Só se aprende a fazer fazendo. Essa é a grande contribuição de Arriete Vilela, organizadora desta obra: proporcionar a quem namora a literatura, como leitor e/ou escritor, a oportunidade do exercício de criação”.
“Esse exercício, além de prazeroso e instigante, constrói um duplo caminho: primeiro, o de despertar no outro o prazer da leitura, a descoberta de um mundo paralelo sedutor e apaixonante; e segundo, o de alertar aqueles que foram tocados pela sedução da escrita de que a arte é, sobretudo, o exercício de paixão e do suor”, contou Otávio Cabral.

Va lá:
Para além da leitura será lançada nesta terça-feira (11), no Maikai (Stella Maris), às 19h30.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

AI-5: cinema, música, teatro
histórias da censura em Alagoas
Houve um tempo em que fazer música, cinema, teatro no Brasil era mais do que amargar a ausência de políticas públicas de incentivo à produção cultural. Era mais do que sofrer a angústia da falta de apoio de empresas privadas na gravação de um CD, na finalização de um filme ou na montagem de um espetáculo. Entre os anos 1964 e 1985, ser artista neste país era viver sob a vigilância diária de olhos insanos e furiosos: os da censura.
Algoz de toda e qualquer manifestação do pensamento, a censura – mais ostensivamente implacável após 1968 com o decreto do AI-5 – foi a arma escolhida pelo regime militar para coibir, perseguir, punir qualquer idéia, opinião ou prática que pudessem ser interpretadas como contrárias aos ideais da Ditadura, mesmo que não tivessem conteúdo diretamente político. O preço a pagar por quem usava a cuca (jornalistas, músicos, escritores, dramaturgos e cineastas): prisão, sequestro, tortura, exílio.
Se nacionalmente, episódios de censura à classe artística deixaram sua marca na história, aqui em Alagoas, a repressão às ideias também mostrou a cara. Neste caderno especial dedicado a resgatar esse pedaço pouco conhecido da narrativa alagoana, O Jornal abre espaço para que músicos, atores, diretores e cineastas contem agora sua história, além de trazer uma entrevista inédita com o representante da censura.


Anilda Leão com Arrizete Costa, em Calabouço, de Joaquim Alves


Cinema em transe
Durante o período do regime militar, a ação da censura no cinema brasileiro procurou moldar a produção aos ideais políticos do regime. O mote principal era proibir, sempre que possível e na inviabilidade de proibir, cortar. Exemplo disso foi Terra em transe, de Glauber Rocha.
Marco no cinema brasileiro, o longa, considerado um espetáculo poético sobre o transe político pelo qual passavam os países da América Latina, inaugurou a estética tropicalista. No entanto, nas palavras do cineasta alagoano Cacá Diegues, foi “o filme mais atacado, repudiado, odiado, de toda a história do movimento”. Em 1967, Terra em transe – com Jardel Filho, Paulo Autran e José Lewgoy – foi proibido em todo o país, com ordem de recolhimento das nove cópias existentes.
Em Alagoas, a repressão também frustrou sonhos dos que faziam cinema. Foi assim com o cineasta Antônio Souza que viu seu desenho animado Coisas que a gente vê ser vetado pela censura em 1979. “O curta não trazia nada demais. Mostrava episódios do cotidiano, entre eles uma cena de um casal de cães acasalando na rua. Era uma época de puro terrorismo”, contou o crítico de cinema Elinaldo Barros. 
Carlos Bezerra Brandão também sentiu na pele o receio da autoridade cerceadora da censura e preferiu, em 1975, não inscrever A busca – um filme com duração de 40 minutos, mudo e de tema político – em festivais de cinema. “A busca possuía imagens densas onde procurava captar o momento de asfixia que passava Victor, o personagem central, interpretado por Dário Bernardes. O personagem vivenciava um período de crise político-existencial, sendo perseguido, raptado e torturado. Na sequência final, após ser apanhado por um grupo mascarado, é arrastado para uma viela e brutalmente espancado. Victor, surpreendentemente, após a surra, levanta-se, encara a câmera e ri com o rosto ensanguentado. Em entrevista concedida ao Jornal de Alagoas, em 1977, Carlos Bezerra Brandão afirmou ser um riso de superioridade sobre seus algozes”, disse Elinaldo Barros.
Segundo Elinaldo, Carlos Bandão pensou em inscrevê-lo do I Festival do Cinema de Penedo, em 1975, porém, preocupado com a censura militar, decidiu não participar. “Só em 1981, ele voltou a filmar. E com Paisagem brasileira, participou do VIII Festival de Penedo, em 1982”.
Outro cineasta alagoano que possui um episódio com a Ditadura Militar é Joaquim Alves. Realizador de filmes como Crise, Severino e O homem que jantou o filho, Joaquim é responsável por uma cena de nudez que chocou os mais conservadores. “Acredito que foi o primeiro nu do cinema alagoano. Em Calabouço, Joaquim levou às telas uma cena ousada em que a atriz Arrizete Costa tirava a roupa. O curioso é que soube recentemente que o original foi jogado no lixo, por engano, pela mãe de Joaquim”, comentou o historiador Geraldo Majella.
Mas foi com Mordaça que Joaquim sentiu o gosto amargo da desaprovação militar. Na película, a atriz e escritora Anilda Leão interpretava uma mulher dominada por sonhos eróticos com rapazes. O filme, calcado nas imagens, sem diálogos ou narrações recebeu um veto da censura em 1975, durante a Jornada de Salvador, ficando de fora do evento baiano. 

PENEDO 
Os festivais de cinema sempre foram o modo mais democrático de levar arte, cultura e reflexão cinematográfica a todos os lugares. Mesmo durante o regime militar. Foi naquele período que nasceu em Penedo o festival de cinema mais significativo do Estado. O Festival de Cinema de Penedo teve oito edições – 1975 a 1982 – voltadas a exibição de trabalhos produzidos em Super 8.
“O festival acontecia sempre no início de janeiro, junto à procissão de Bom Jesus dos Navegantes, tradição da cidade de Penedo em Alagoas e sua programação se estendia por três a quatro dias no Cine São Francisco. Em suas primeiras edições, disponibilizava exibições de curtas ou longas-metragens nacionais junto com a mostra competitiva de filmes alagoanos em Super 8. No último dia do festival, a comissão julgadora anunciava as produções premiadas, que seriam exibidas novamente. A comissão compunha-se, em média, de oito a 12 membros, entre eles o presidente da mesa e um secretário que anotava as avaliações a respeito dos filmes”, conta Elinaldo Barros em seu livro Panorama do Cinema Alagoano (2007).
“Para participar do Festival, o filme precisava ter sido realizado em Super 8, com máximo de 30 minutos, e cada participante poderia concorrer com até dois filmes, desde que eles viessem acompanhados do Certificado de Censura. Os filmes premiados em outros festivais de bitola 8mm também poderiam se inscrever, desde que fossem inéditos no circuito comercial”, continua Elinaldo.

SUPER-8     
A produção em Super-8 também era a estrela do Festival Alagoano de Super-8. Promovido pelo Movimento Estudantil de Cultura Artística, possuiu apenas uma edição, em novembro de 1976, no Teatro de Arena Sérgio Cardoso. Celso Brandão foi o vencedor com o documentário Alegrando; em segundo lugar classificou-se Mário Feijó, com A maldição de Klemenn; Adelvan Henrique levou a terceira colocação com Fases da produção da cana de açúcar. Kleiner Cardoso Gomes, então com doze anos de idade, ganhou menção honrosa por A faca.


José Márcio Passos, Dario Bernardes e Ronaldo de Andrade em A ilha
 
 
 
007 e o público “comunista”

Contudo, a censura não perseguia somente os produtores de filmes. “O público também era alvo da polícia. Existia um policial que logo foi apelidado de 007. Ele costumava ficar na porta dos cinemas observando quem entrava para assistir a determinados filmes. Ele olhava para as pessoas como se marcasse as fisionomias de cada uma. Certa vez, houve uma mostra de cinema russo com filmes todos liberados para exibição, mas o 007 estava lá, encarando quem entrava no cinema. Certamente, por serem filmes russos, ele fez uma ligação com o comunismo. Então, para ele, todos que estavam ali podiam ser comunistas”, falou Elinaldo.

CINEMA DE ARTE
Segundo o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Radjalma Cavalcante, a Ditadura Militar também foi uma das responsáveis pelo fim do Cinema de Arte em Maceió. Criado por ele, Imanoel Caldas, Gildo Marçal e Bezerra Neto em abril de 1967, o projeto durou 10 anos com exibições aos sábados no Cinema São Luiz (situado na Rua do Comércio, no Centro de Maceió) e às sextas-feiras, no Cinema Rex, no bairro da Pajuçara. “A idéia nasceu pouco menos de dois anos antes do AI-5, quando o regime militar ainda não havia entrado em sua fase mais truculenta”.
“Além da exibição de filmes, promovemos palestras e seminários sobre o papel dos filmes particularmente do cinema nacional, com a participação de personalidades como Cacá Diegues e a cantora Nara Leão. Ao todo, foram exibidos mais de quinhentos filmes, mas, devido a pressões dos órgãos de segurança do regime militar e outros interesses comerciais da Empresa proprietária o Cinema de Arte foi encerrado em março de 1977”, o professor.
“Felizmente, alguns órfãos das velhas sessões do Cinema de Arte se tornaram críticos de cinema respeitados e deram seguimento ao projeto. Esse é o caso do professor Elinaldo Barros, que desde a década de 1990 promove sessões de arte no Shopping Maceió. Além de Elinaldo, uma nova geração, como o conhecido Marcão, desenvolve vários e interessantes programas no Centro Cultural do Sesi, nas duas salas de cinema na praia da Pajuçara”, comemora Radjalma.

AI-5
O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e produziu um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados.
Fonte: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC).

DCDP
Para fazer cumprir a censura foi criada uma divisão específica para fiscalizar as produções artísticas, a DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas). Representantes dessa Divisão eram constantemente vistos em shows e espetáculos, controlando rigorosamente o que era apresentado. A censura se mostrava arbitrária, uma vez que no âmbito moral as restrições eram menos claras do que no aspecto político. As proibições e alterações tinham frequentemente caráter subjetivo ficando muitas vezes movidas pelas decisões pessoais dos censores. “Na verdade, não existiam critérios. Era tudo muito subjetivo e iam desde os aspectos ideológicos e políticos até os relacionados ao costume, à moral”, comentou o historiador Geraldo Majella.


O Grupo Terra era formado por Edson Bezerra e Eliezer Setton (vocais);
Chico Elpídio (violão e vocal); Messias Gancho (baixo); Cláudio Carlos (bateria);
Beto Batera (percussão); Jorge Quintella Filho (flauta doce);
Zailton Sarmento (viola de 10 cordas)

 
Raízes, um “hino à subversão”

De todas as classes artísticas, a dos músicos foi, provavelmente, a mais visada e atormentada durante o Regime Militar. Episódios como o da censura sem trégua às canções de Chico Buarque e os dos exílios de Caetano Veloso e Gilberto Gil são icônicos no que se refere às perseguições amargadas por artistas brasileiros.
Por aqui, certamente, o fato mais expressivo envolveu o III Festival Universitário de Música e uma composição de Francisco Elpídio e Eliezer Setton, então membros do Grupo Terra. Raízes virou notícia nacional quando, em 1983, foi o estopim de uma acirrada discussão envolvendo os conselheiros Pompeu de Souza, representante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e Antônio de Morais, do Conselho Federal de Entorpecentes (Confen), ambos integrantes do Conselho Superior de Censura (CSC), em Brasília.
A obra de Elpídio e Eliezer foi uma das 12 músicas selecionadas no festival, que havia acontecido um ano antes, em Alagoas. Todas estavam na pauta daquele dia 25 de fevereiro, sendo julgadas para liberação. Juntas iriam compor o disco, produto do festival.
A polêmica foi notícia em vários jornais do País, a exemplo do Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e A Tarde. “O que chamou a atenção dos jornalistas foi o debate acalorado em torno da música e o fato de o conselheiro da ABI, que estava defendendo a liberação das composições, passar mal e precisar ser socorrido por problemas cardíacos”, lembrou Eliezer Setton.
“O clima dessa reunião foi bastante tenso. Tenso a ponto de o representante da ABI, Pompeu de Souza, depois de uma discussão com o conselheiro Antônio de Morais, do Confen, em torno da música Raízes, de Francisco Elpídio e Eliezer Setton, ter de se retirar para atendimento no serviço médico do Senado”, publicou no dia seguinte à sessão o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo.    
“O representante do Conselho Federal de Entorpecentes propôs a interdição da música (...), alegando que ela era um ‘hino à subversão’”, publicou o Jornal do Brasil.
Já de acordo com o jornal A Tarde, da Bahia, Moraes defendeu a manutenção da censura por acreditar que a canção poderia “incitar a juventude contra o regime”. “Ele disse não querer que aconteça um novo 1964, que ‘coisas como essa venha a provocar um novo golpe e perturbar a abertura’”. Segundo o periódico, Pompeu de Souza não resistiu, depois de já ter se emocionado ao defender a liberação de uma música de Sérgio Malandro, Vem fazer ginástica. “O representante da ABI votou pela liberação de Raízes e se retirou”.
Segundo a Ilustrada, Pompeu de Souza, antes de sair, “observou que o CSC não poderia vetar uma música como Raízes quando o País todo está cantando livremente a composição de Geraldo Vandré, Pra não dizer que não falei das flores”.
Mesmo após tanta contenda, o curioso é que ainda não seria desta vez que Raízes seria liberada. Naquele dia, “das dez músicas em pauta, apenas Canto chão, A matança do boi e Sem remédio e sem doutor (todas do Festival Universitário de Alagoas) e Vem fazer ginástica (Sérgio Malandro) foram liberadas. A mais polêmica, Raízes, teve decisão adiada por pedido de vistas pelo representante dos cineastas, Geraldo Sobral Rocha”, divulgou A Tarde.
O que os membros do Conselho Superior de Censura (CSC) não sabiam é que, secretamente, o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Alagoas (DCE-Ufal), responsável pela execução do lIII Festival Universitário de Música, já havia conseguido a gravação e prensagem dos LPs no Estúdio Rozemblit, em Recife.
“Enquanto aguardávamos a decisão do CSC, com muito jeito, conseguimos convencer a Rozenblit a adiantar a prensagem dos discos, com o compromisso de só distribuí-los após a liberação da censura, sob pena de prejudicar a empresa. Com os mil discos nas mãos e temendo a sua apreensão, montamos uma verdadeira operação de guerra para transportá-los para Maceió e escondê-los sob o mais absoluto segredo. De tempos em tempos, por segurança, havia uma mudança de esconderijo, e novamente se organizava sigilosamente o transporte dos discos”, comentou Edberto Ticianeli, na época presidente do DCE-Ufal.
Segundo Ticianeli, esse disco é o único Long Play produzido no Brasil por uma entidade estudantil. “Apenas o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), que lançou, em 1962, um compacto com quatro músicas, também tem essa marca”.  
      
RAÍZES
Entrelaço/Do passado esquecido/Entre o laço/Do presente recebido/Só não passo adiante/Os passos que eu caminhei/Escolhi me exilar/Num mundo só meu, só/Ora volto/Pra rever o chão em que nasci/Oro e volto/Pra encontrar a paz que aqui perdi/Cambaleante, oscilante, silente jamais/Vou de novo gritar/Me encontro outra vez na ação/Repisando o rastro impostamente escondido/Revivendo os fatos que tornaram-me um banido/Começando tudo de onde parei/Sem temer reprisar/A cena do livre opinar/Volto amplamente, em geral, quase irrestrito/Sem deixar que pelo dito fique o não dito/Solidário aos que ainda aqui não estão/Volto sim, voto não/Não sei a quem cabe o perdão/Pra ficar.

BLACK-TIE
Além das músicas, naquele dia também entraram na pauta do CSC dez filmes para liberação, sendo quatro para exibição em televisão. Seis deixaram de ser julgados por ausência dos conselheiros relatores ou por problemas burocráticos. As mulheres sempre querem mais foi liberado, com cortes, para após as 23 horas; Eles não usam black-tie, com cortes e supressão de parte da trilha sonora, para após as 21 horas; Aphrodite, para o cinema, teve mantida a interdição integral, já baixada pela Polícia Federal, por conter cenas de sexo; e As aventuras de um paraíba continuou proibido para menores de 18 anos e para a televisão.
Fonte: A Tarde. Sábado, 26 de fevereiro de 1983.

DISCO
Lado A
1. Canto do chão - Grupo Terra
2. Sebo nas canelas - Pedro Rocha Fortes
3. Matança do boi - Antonio Carlos
4. Sem remédio e sem doutor - Mácleim e Zé Barros
5. Allea jacta est - Antonio Carlos
6. Samba da ilusão - João Melo e Zailton Sarmento

Lado B
1. A história da concha do mar - Mácleim e Zé Barros
1. Raízes - Grupo Terra - Francisco Elpídio e Eliezer Setton
3. Renegados - Quarteto Vozes
4. Legião dos condenados - Ricardo Mota
5. Vai e vem - Maria Amélia Pessoa
6. Tentação - Gal Monteiro, Bel, Emidio e Aline

Ficha técnica
Produção: Diretório Central dos Estudantes - Ufal
Direção e produção: Paulo Pedrosa
Direção artística: José Gomes Brandão
Assistente de direção: Paulo Pedrosa
Técnico de gravação: Jailson Romão
Mixagem: Jailson Romão; José Gomes Brandão; Francisco Elpídio
Desenho e arte de capa: Enio Lins

César Rodrigues defende a canção Canto Chão


Festival dos festivais

O III Festival Universitário de Música, em 1983, foi um evento único na música alagoana. Após quase duas décadas de vozes represadas pela Ditadura Militar, o festival – interrompido no final dos anos 60 –, além de projetar vários artistas que ainda hoje fazem parte da cena musical, representou uma oportunidade de os universitários alagoanos enfrentarem abertamente a censura.
É que, após enviarem à Polícia Federal (PF) as cópias das 60 semifinalistas do evento, nem todas foram liberadas para participação no festival. “O DCE tinha consciência de que estava comprando briga com o regime militar, particularmente com os seus mecanismos de censura. Os obstáculos criados de nada serviram para impedir que milhares de jovens estudantes participassem das sessões de pré-seleção, das quatro eliminatórias no Teatro Deodoro e da grande final no Ginásio do CRB (transmitida, ao vivo, pela rádio Gazeta AM)”, contou Edberto Ticianeli.
Segundo o então dirigente do DCE-Ufal, mesmo sem a permissão da censura, a divulgação do evento continuou sendo feita contendo os nomes das músicas semifinalistas. “Então, a PF nos chamou a depor e nos avisou que não podíamos divulgar nada enquanto eles não autorizassem. Acontece que continuamos normalmente com a divulgação. Com a aproximação do dia da primeira semifinal, voltamos ao Departamento de Censura para sabermos a situação das músicas e notamos que eles estavam segurando a liberação para inviabilizar o festival. No último momento nos informaram que algumas músicas seriam vetadas em parte, e uma delas não poderia ser executada. Como não haveria tempo hábil para mudanças, eles esperavam que o festival não acontecesse”, comentou Ticianeli.
Edberto Ticianeli ainda se lembra que, durante a semifinal, dos bastidores do Teatro Deodoro, o policial censor acompanhava “tudo o que se fazia e se dizia no palco”. “Com o anúncio das músicas, ele percebeu que iríamos desrespeitar a censura e ameaçou paralisar o festival. Era o momento esperado, em que saberíamos se a Ditadura Militar estava disposta a enfrentar o desgaste de ter que impedir um festival universitário. Jogamos duro e desafiamos o policial a subir no palco e anunciar as músicas que não poderiam ser apresentadas. Ele recuou e saiu do local afirmando que iria procurar o seu superior para tomar as providências. Continuamos com as apresentações e ficamos aguardando uma possível ação policial. Nada aconteceu”.

PARCERIA INUSITADA
Apesar da questão em torno de Raízes, foi outra música composta por Francisco Elpídio, dessa vez em parceria com Edson Bezerra e César Rodrigues, a grande vencedora do III Festival Universitário de Música: Canto chão.
No entanto, para ser liberada para participar do evento, a canção precisou primeiro se adequar às condições da censura. Segundo um dos compositores, Edson Bezerra, após inscrever a música no festival, enviou a letra para o departamento responsável da Polícia Federal, aqui em Alagoas. Depois de alguns dias foi convocado para uma audiência.
“Passado o susto, quando lá cheguei, fui surpreendido por um senhor gentil de nome Arivaldo. Logo após me convidar para sentar, o senhor retirou da gaveta a minha letra e disse: Ô rapaz, eu queria lhe propor algumas mudanças nesta letra, afinal ela está muito bonita, mas está com umas passagens que não vai dá para passar. Por exemplo, por que em vez de cor vermelha, você não substitui por cor alegre e em vez de batalhão outra palavra? E também esta coisa de guerrilha não dá de jeito nenhum. Vá para casa, dê uma olhada no que você acha que pode mudar e depois volte”, descreveu Edson Bezerra.

DISCURSO DE TICIANELI
“Nós estamos abrindo, neste momento, o III Festival Universitário de Música. Retomando dessa forma a tradição dos festivais universitários na nossa terra, que foi interrompido no último festival, em 1973. Depois, infelizmente, devido ao regime de repressão que se abateu sobre o nosso País, não tivemos mais liberdade de fazer os nossos festivais. Isso, de certa forma, ainda permanece, já que neste festival foram censuradas quatro músicas que só podem se apresentar neste festival, e uma delas foi censurada completamente. Nós fazemos essa denúncia aqui. Este festival, como não poderia deixar de ser, como não poderia fugir à regra dos grandes festivais, não é simplesmente uma apresentação de música, e sim uma bandeira que a gente procura levantar bem alto na cultura da nossa terra. Dessa forma, nós oferecemos este festival a todos aqueles que tombaram na luta por liberdade em nosso País”.
CANTO CHÃO
Terra do sol, liberdade e ouro
Há de haver aqui, vamos desbravar.
Terra de sal, caminhos de gente
Berço de manhãs, muita alegria ainda nascerá aqui.
Sempre é hora de plantar na terra,
O que o fruto traz construir na luta.
A doce labuta de quebrar os muros
Cantar o mesmo canto, beber do mesmo fel.
Nas manhãs banhar o corpo a sol e sal,
Caminhar nas ruas sempre a libertar
O grito escondido, o amor escondido,
Em corações e em gerações.
Trazer no rosto o cansaço; no peito, as emoções,
De fazermos sempre um gesto forte em cada mão
Seremos raça e força que arrasta multidões
E olha que esse tempo vem,
De uma cor vermelha, cor do coração
Seremos um só povo, um só mutirão
Teremos terra e trigo, sorrisos e canções
E entre palmeiras, vilas e ruas,
Nossos corpos cansados irão repousar.
Latinamente ser, brasileiramente amar, amar.
E ouça lá, companheiro e amigo, não espera vem,
Já se toca o sino, já se entoam tantos hinos.
Viva a grande pátria, ò doce mãe gentil.
Terra de sol, terra de sal, terra do mar de anil.
Latinamente ser, livremente está, brasileiramente.

José Marcio, Dário Bernardes e Ronaldo de Andrade em leitura de poemas 

 
Censura em cena

Do mesmo modo que o cinema e a música, o teatro – assim como as outras vertentes artísticas, como as artes plásticas e intelectuais, como a literatura – penou com a tesoura afiada (e cega) da censura militar.
Naquele período, para muitas companhias teatrais, controladas em vários níveis – da análise dos textos das peças à vigilância dos ensaios e das representações no palco –, uma das saídas encontradas para tolerar a asfixia gerada pela repressão foi a montagem de peças clássicas da dramaturgia estrangeira, como as gregas e inglesas.
Foi o que aconteceu com o Teatro Universitário de Alagoas (TUA), que em 1969 retornou às atividades após dez anos sem produção. “Não era a nossa primeira intenção. Planejamos fazer quinzenalmente um show artístico, onde faríamos colagens de textos para discutir o autoritarismo, mas quando enviamos o texto da peça ao departamento de censura, não foi aprovado”, comentou Otávio Cabral, ator, escritor e professor de Literatura Dramática na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), na época presidente do TUA.
Antes de receber o não, porém, Otávio Cabral, sob ameaça de ser preso, foi interrogado durante oito horas na delegacia da Polícia Federal. “Fui chamado pelo chefe do departamento, seu Porto. Ele me disse: ‘Você não vai fazer isso não. Se fizer, vamos prender o senhor’”.
A solução foi montar a peça Antígona, de Sófocles. “Pegamos a esteira de Paulo Autran, em turnê com a peça Édipo Rei. Foi a forma que encontramos para combater a Ditadura e discutir o autoritarismo com a sociedade”, disse Otávio, lembrando que a montagem arrebatou os prêmios de melhor espetáculo, melhor direção (Alfredo de Oliveira) e melhor ator coadjuvante (Otávio Cabral).
Ironicamente, na opinião do professor, a era da Ditadura no Brasil foi o momento em que houve grande efervescência poética, “um período onde as artes proliferaram”. “O autoritarismo instalado nos levou a criar um teatro de excelente qualidade. Quando houve a redemocratização, as grandes obras de arte haviam sido encenadas. As que estavam guardadas, não tinham qualidade, haviam sido autocensuradas pelo próprio autor”. 
Opinião defendida pelo ator, diretor e professor da Ufal Ronaldo de Andrade. “Realmente existia uma vida produtiva intelectual muito grande. Havia o medo, claro, vivíamos sempre numa tensão, mas foi um momento de grande produção. O problema é que sempre tinha um boato de algo ameaçador rondando os palcos, os bares aonde íamos”.
Um desses boatos fez Ronaldo quase desistir de ser ator. “Havia um rumor de que havia um carro dirigido por um policial oriental. Diziam que ele recolhia as pessoas e as colocavam numa kombi. Na época, eu fazia Psicologia e comecei a ficar apavorado, paranóico com aquilo, e passei a sair de casa somente pra ir à faculdade. Parei de fazer teatro. Um dia, eu estava molhando as plantas do jardim de casa quando vi uma kombi estacionar em frente ao portão. Na minha cabeça, eu via um monte de japonês saindo de dentro do carro. Então, desesperado, me joguei no chão e rolei para me esconder atrás de uma árvore. Foi quando ouvi uma palmas e resolvi me levantar lentamente. Quando me viu, perguntou pela minha mãe. Era um vendedor ambulante. Aquilo me fez ver que eu não podia continuar daquele jeito, sem sair de casa. Então, voltei ao teatro”, revelou Ronaldo.
Mas talvez, ninguém tenha provado mais do sabor amargo do “cálice” da censura do que o professor e historiador Sávio de Almeida. Para ele, a sua experiência com a Ditadura foi “a maior violência que aconteceu em Alagoas a uma pessoa”. Sávio teve três peças censuradas e só foram montadas após o fim do regime.
Uma delas, Igreja Verde, recebeu patrocínio do Ministério da Educação (MEC), mas não passou pelo crivo da censura na hora da montagem. “Eles disseram que eu ridicularizava a religião, que incitava a luta de classe. Questionei com eles sobre a aprovação do MEC, e eles disseram que o Ministério tinha visto pelo lado da arte e que eles observaram a minha intenção política. Eu pensava, meu Deus, eu não sabia que fazia isto tudo. Fiquei sem entender por que eu estava sendo considerado como inimigo público”.
Segundo Sávio, o responsável pela censura disse: "Professor, até um gesto que o senhor manda fazer, nós queremos ver". “É uma tortura ouvir um censor, ficar calado e não mandar tomar no (*). Mas, eu não tava com medo não. Não tive um pingo de medo. Disse pra mim: ‘Eu não choro na frente deste puto’. Dei bom dia e fui embora. Mas, quando pisei na rua, as lágrimas desceram. Ali ao lado da casa do velho Félix Lima Júnior, no Farol, as lágrimas caíram dos olhos. Eu pensava: meu Deus, triste deste País, que pena!”.


Mendonça foi censor em Alagoas durante o Regime Militar


Com a palavra, o censor

Arivaldo Mendonça de Carvalho, 71 anos, aposentado, casado pela segunda vez, seis filhos, seis netos. Formado em Pedagogia na Bahia e em Psicologia pelo Cesmac, Arivaldo é baiano. Chegou a Maceió nos anos 70, acreditando encontrar por aqui melhor qualidade de vida. “O trânsito em Salvador era horrível. Morava em Amaralina e meu trabalho ficava no Mercado Modelo, no Centro. Levava meia hora pra chegar”, contou.
Apesar de gostar de música e de haver composto algumas canções, Arivaldo não é artista, entretanto, em nossa história, tem papel principal. É que para quem fazia arte em Alagoas durante o Regime Militar, Arivaldo era Mendonça, o censor.
Embora, hoje, seja lembrado com carinho por membros da classe artística, Mendonça representava o que havia de mais cruel capaz de atingir esses seres que ansiavam se expressar através da arte: a censura.
Policial federal, respondia à Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), órgão diretamente subordinado ao Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça. Nenhuma manifestação cultural acontecia sem sua aprovação. “Mas eu era liberal, na medida do possível”.
Confira, a partir de agora, os principais momentos dessa entrevista concedida com exclusividade a O Jornal.

- Como você se tornou censor. Como foi sua trajetória profissional até chegar a esse cargo?
Em 1967 me formei em Pedagogia, na Bahia. Já era pai e como professor, o salário era pouco, não dava pra nada. Em 1973, foi aberto o primeiro concurso para Polícia Federal. Passei e logo depois foram oferecidos os cursos de delegado, perito e censor. Houve uma pré-seleção interna na PF e quem era formado em Direito podia fazer o curso para delegado, as outras profissões tinham à disposição os outros dois cursos. Optei pelo o de censor.

- O que o levou a escolher justamente esse curso?
Sempre gostei das relações humanas, de me manter próximo às pessoas, aos costumes. Mas, confesso, meu principal interesse foi mesmo econômico.

- Como era o seu dia-a-dia nessa função?
Minha função era analisar as letras de música que iam participar de eventos ou de discos; avaliar livros; no teatro, ler os textos e acompanhar os ensaios dos espetáculos para conferir se as observações que por acaso fossem feitas, iriam ser cumpridas. Tanto shows e espetáculos locais quanto os que vinham de fora. Djavan, Roberto Carlos tinham que pegar autorização comigo. Eu dava uma olhada na programação e liberava. Quando cheguei não era assim. A pessoa que ocupava o cargo antes de mim, não consigo me recordar o nome, não havia recebido treinamento e era essencialmente burocrático. Tinha estabelecido um procedimento que toda a programação tinha que passar por um protocolo. Exemplo: o pessoal vinha de Pão de Açúcar para autorizar um evento e tinha que esperar até o outro dia pra ser liberado. Resolvi aliviar a burocracia e passei a liberar na hora.

- Houve algum caso curioso que o senhor ainda se recorda?
Veio um grupo de teatro encenar uma peça do Millôr Fernandes. O texto tinha cortes e percebi, durante os ensaios, que o grupo não estava obedecendo às recomendações. Mandei parar e um dos atores se aborreceu dizendo que os cortes haviam sido feitas pelo próprio Millôr e que eles não queriam seguir esses cortes. Então, fui ao gabinete do superintendente e por telefone, falei com o Millôr e pedi a ele que mandasse um documento autorizando a montagem. Outro episódio foi com a Dercy Gonçalves. Coincidentemente, ela vinha em turnê com uma peça diretamente de Ilhéus, minha terra natal. Não exigi que ela viesse a mim como era de praxe, fui até ela por uma questão de respeito. Quando lá cheguei, ela veio toda animada, com aquele jeito dela e me disse: “Ah, então você é o famoso Mendonça! Trouxe um presente de Ilhéus pra você do seu amigo Mundinho, uma cachaça”. Agradeci e como já conhecia a fama dos seus espetáculos, perguntei: “E o que eu faço com o seu texto Dercy”. Ela me disse: “Não faça nada, deixe comigo. Eu sei, não se preocupe. Vou manerar com o vocabulário, aqui o público é diferenciado. Só entro na hora certa”, disse gesticulando e sorrindo.

O que o senhor se lembra do episódio envolvendo as músicas que iam participar do III Festival Universitário de Música e do disco, fruto do evento? 
Sempre quando a coisa era polêmica, quando surgia alguma dúvida, eu encaminhava pra Brasília. Acontece que naquela época haviam algumas letras consideradas duplo sentido e a chefia exigia certas regras. Não foi covardia minha. Alguns autores ficavam chateados, mas quando eu mandava pra Brasília ia com uma recomendação: “Se puder libere. O pessoal daqui é gente boa, não tem maldade”. Quando eu mandava com a recomendação, geralmente era atendido.

- O senhor concordava com o uso da censura para valer os ideais do Regime Militar?
Não concordava com a forma como era feita a censura, mas ela defendia a moral e os bons costumes e com isso eu concordo. É preciso preservar certos valores. Valores que hoje estão sendo espezinhados, totalmente perdidos. Os valores morais estão sendo jogados no esgoto.

- Então o senhor acredita que hoje, a censura é necessária para a preservação desses valores?
Olha, aqui não fala o censor, fala um pai de família. Acho que é preciso sim alguma providência, principalmente em relação às novelas. A TV está extrapolando, mas até o público prefere assim. Se fizerem uma novela séria, um programa sério, ninguém vai querer assistir.

- E o que o senhor acha que deveria ser feito?
Tenho idéia de como isso poderia ser resolvido. Teria que partir de orientação de cima pra baixo. Acho que caberia aos órgãos emissores dessas programações. Porque as emissoras estão contribuindo para a desvalorização da família. Acabou-se o respeito, acabou tudo. O que se vê hoje são jovens bebendo, o respeito acabou. E o respeito deveria ser valorizado. Eu apanhei da minha mãe de cabo de vassoura e não me queixo. O respeito à família é muito importante.

- Olhando para trás, como você se sente em ter feito parte desse momento da história do País?   
Não nego, infelizmente fui censor, mas tenho orgulho de dizer que participei da melhor maneira possível. Não fui omisso, tampouco dedo-duro. Era obrigado a cumprir as leis, mas era liberal na medida do possível. Fui até homenageado no Clube dos Fumicultores de Arapiraca. Hoje, só tenho amigos em Alagoas.

CARGO
Em 21 de novembro de 1968, vinte e um dias antes da edição do AI-5, entra em vigor 15 a lei 5536, criando o cargo de Técnico de Censura, que exigia curso superior em Ciências Sociais, Direito, Filosofia, Jornalismo, Pedagogia ou Sociologia. Investindo na formação dos censores, a censura se profissionaliza. Com carga horária total de 776 horas, o curso compreendia estudos de: “formas de discurso, funções da narrativa e lógica das ações; publicidade, propaganda, efeitos da comunicação social; processo de formação cultural brasileira e dos fatos sociais, políticos, econômicos, religiosos e culturais da atualidade; conhecimento das leis do raciocínio lógico e coerente, com vistas à apreensão do objeto de análise censória, legislação, armamento e tiro e adestramento físico”.

DCDP
Órgão responsável pela censura de produções artísticas durante o regime militar, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), tem sua gênese em um decreto de 1934, com o qual Getúlio Vargas criou o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Em 1939, surge um outro braço de sua inspiração: o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

SEU PORTO
Conhecido pelo autoritarismo, agressividade e rispidez, seu Porto (responsável pela censura antes de o cargo ser ocupado por Mendonça) era temido em Alagoas. Temor reforçado por ser de conhecimento de todos que o policial era primo do coronel Fontenelle, do Detran de São Paulo.
O coronel ficou famoso na década de 1960 não só por revolucionar e colocar em ordem o trânsito da cidade paulista, mas também pelo temperamento intempestivo e pela truculência em suas ações. Uma delas era sair às ruas e furar os pneus dos carros estacionados irregularmente. “Essa história era bem conhecida por aqui, então todos tinham receio”, lembrou o professor Otávio Cabral. “Hoje acho engraçado porque seu Porto, às vezes, via o subversivo em algo que não era e o que era subversivo, ele não entendia”, disse a museóloga Cármen Dantas.
Acusada por seu Porto de, juntamente com Solange Berrard Lages – responsável pela criação, além do Festival de Cinema de Penedo, do Festival de Verão de Marechal Deodoro – fazer parte da “esquerda festiva” da classe artística, Cármen Dantas lembra que ainda houve uma tentativa de amaciar o coração do policial. “O Zé Márcio descobriu, não sei como, que seu Porto gostava de pássaros, então começamos a presenteá-lo com passarinhos, mas, não teve jeito”, disse a museóloga.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Parabéns, Jerry Lewis!


Quem tem mais de 30, certamente se lembra dos filmes de Jerry Lewis na Sessão da Tarde. Eu amava. Não perdia um, não importava quantas vezes fossem exibidos. Meus preferidos: O terror das mulheres e O professor aloprado, claro. Pois é, os anos passaram, eu nunca mais assistir a nenhuma Sessão da Tarde e os filmes do comediante – todos produzidos entre 1950 e 1964 – logicamente, viraram peça de colecionador.
Na última sexta-feira (16), Jerry Lewis comemorou 86 anos de vida. Ao ver a sua fotografia soprando as velinhas, já velhinho, fiquei emocionada. Um tanto nostálgica. Afinal, ele foi responsável por tardes de gostosas risadas. E isso a gente não deve esquecer. Por esse motivo, hoje dedico o blog a ele.

Jerry Lewis, parabéns!
Dona Clarice faleceu no sábado (10), em São Sebastião


 Morre mestra Clarice

 No sábado (10), Alagoas perdeu mais um patrimônio vivo da cultura. Dona Clarice, mestra artesã na arte da renda de bilro, faleceu aos 79 anos, em São Sebastião. Segundo informações da Secretaria de Estado do Planejamento e do Desenvolvimento Econômico (Seplande/AL), Dona Clarisse faleceu em virtude de complicações decorrentes de uma cirurgia de vesícula a que foi submetida na última quinta (8).

Em maio do ano passado, Dona Clarice foi tema de matéria publicada no O JORNAL. No texto, a jornalista Shirley nascimento escreveu: “A mestra, que sabe fazer todo tipo de renda de bilro e já deu aulas nas extintas Emater e LBA, entre outros locais, chega a utilizar cento e oitenta bilros para fazer uma única peça. Vai depender do tamanho da mesma e da complexidade do traçado. Ela ilustra uma peculiaridade da arte do bilro e da renda em geral com um episódio ocorrido em São Sebastião. Praticamente, não há homens fazendo renda. ‘Um homem aqui da cidade tentou fazer o bilro, mas ficou mal falado. Ele estava aprendendo com a avó. Eu acho que, se for pra ganhar dinheiro honesto, não tem problema’. Ela acredita que a tradição ainda vai durar muito e defende a renda feita em Alagoas. “Época que vem muito turista, como final de ano e em janeiro, é quando mais procuram aqui em casa. A renda mais bonita, a mais bem feita, é a de Alagoas. Aqui não tem renda mal feita”. Um dos momentos mais felizes em mais de seis décadas dedicadas ao bilro foi quando recebeu a homenagem estampada no portal na entrada da cidade. ‘Fiquei muito feliz porque tive resultado com meu trabalho, com apoio ou sem apoio, e conheci muita gente boa’. Dona Clarice também foi homenageada pelos Correios quando São Sebastião completou 50 anos que havia se tornado cidade e teve uma foto sua estampando um selo. Mas ninguém pense que ela está pensando em descansar os bilros tão cedo. ‘Continuarei fazendo a renda até o dia que o homem lá de cima me deixar fazer, até quando ele disser ‘já trabalhou muito aí, então muda pra cá’”.