sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Fernando Morais dá entrevista exclusiva ao Blog da Alessandra Vieira

Uma conversa com Fernando Morais

Alessandra Vieira

Foi no início do mês, em um bucólico e charmoso café em Cachoeira-BA, que o Blog da Alessandra Vieira conversou com Fernando Morais. Ele acabara de participar de uma mesa-redonda, na qual debateu sobre “Literatura Brasileira - sucesso de crítica e público” com o também escritor Miguel Sanches Neto e a jornalista Raquel Cozer. O encontro fez parte da I Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que aconteceu de 11 a 16, na histórica cidadezinha, conhecida por seu rico acervo arquitetônico de estilo predominantemente barroco. 
Durante o bate-papo, o autor de não-ficção Fernando Moraes, 65, falou – entre um charuto e outro – de tudo um pouco. Do processo de criação à importância de o Brasil ter um autor como Paulo Coelho (alvo de uma de suas biografias mais polêmicas); do seu início como jornalista ao lançamento do seu 10° livro, "Os últimos soldados da Guerra Fria"; e ainda revelou que tem nove anos de fitas gravadas com Antônio Carlos Magalhães (de quem planeja fazer uma biografia) e arquivos pessoais guardados em um banco fora do País; além dos seus novos projetos.  
Na noite de hoje, o escritor de obras obrigatórias como “A ilha”, “Olga” e “Chatô – O rei do Brasil” vai falar na Bienal Internacional do Livro de Alagoas, que acontece no Centro Cultural e de Exposições de Maceió. O tema da palestra será jornalismo literário e ele dividirá o palco com Teresa Ribeiro. Confira a seguir o que Fernando Morais disse, com exclusividade, ao blog, no último dia 11.    

- Antes de ser escritor, você é jornalista. O que é ser jornalista para você? 
Contar o que ninguém sabe. Essa é a essência do jornalismo. Notícia velha, ninguém quer saber.

- Como você escolhe os temas dos seus livros?
Estou atento a tudo. Mas nem tudo o que vem na cabeça dá para transformar em livro. Então transformo em artigos ou crônicas. Recentemente, quando Dominique Strauss-Kahn foi pego nos Estados Unidos com aquela polêmica com a camareira, sugeri fazer um perfil, para a Playboy, do juiz que mandou prendê-lo (risos). Na verdade, sou meu próprio pauteiro, meu próprio editor. Quem determina o tempo e o espaço sou eu. Claro, na medida do possível, nunca cumpro o prazo. Prometi entregar “Chatô” em dois anos, mas levei cinco. Tenho uma sala no meu estúdio com caixas cheias de personagens, inclusive, alguns deles são nordestinos.

- Entre esses nordestinos, existem alagoanos?
Fiz dois perfis do Collor. Um no auge do poder enquanto presidente do Brasil. O outro, quando caiu no ostracismo devido ao impeachment. Gosto muito do Collor. Acho uma personalidade interessantíssima, um orador brilhante. Quem sabe...

- Sabemos que a crítica não recebeu bem “O Mago”, a biografia de Paulo Coelho? Mas, qual foi a receptividade do público?
Foi muito boa. O livro vendeu muito na Índia. Vendeu muito lá fora. Abriu portas que eu estou tentando abrir há algum tempo. Estou tentando fazer a minha história internacional. Então foi muito bom.

- Então foi por esse motivo que decidiu fazer uma biografia de Paulo Coelho? Ele é um autor muito consumido fora do País.
É verdade, há mais preconceito aqui no Brasil do que lá fora. Na Rússia, um dos países mais intelectualizados no mundo, os livros de Paulo Coelho vendem muito. Na França, do mesmo jeito. Na Europa, as críticas, geralmente, são sempre favoráveis a ele. Aqui é tratado com um desprezo, uma agressividade tão grande, que assusta. Mas não foi apenas por esse motivo. Sou suspeito para falar de Paulo Coelho. Daria para ficar falando do fenômeno Paulo Coelho até amanhã. É muito importante para o Brasil ter um escritor como Paulo Coelho.

- Que importância seria?
Eu concordo com Wilson Martins quando ele diz: “Euclides da Cunha é importante, Machado de Assis é importante e Paulo Coelho, a sua maneira, também é importante”. É provado que ele sabe escrever uma narrativa. Dentro do que ele se propõe a fazer, faz muito bem. Ele sabe escrever. Isso está provado nos seus textos, na época em que ele era jornalista e nas músicas que escrevia com Raul Seixas. O que acontece é que ele descobriu um público e escreve para ele. Humberto Eco disse, uma vez, que Paulo Coelho escreve para a alma das pessoas, e não para a cabeça.

- Já que você falou em Machado de Assis, existe alguém que possa ocupar a sua vaga?
Eu! (risos) Falando sério, existem ficcionistas muito capazes, mas eu não poderia apontar um.

- Como você consegue convencer os seus biografados a contar tantos segredos, muitas vezes constrangedores?
Nada substitui a honestidade. Nessa relação entre autor e personagem tem que haver, acima de tudo, a verdade. A primeira coisa que disse para o Paulo Coelho, para o ACM e para os filhos de Chatô foi: “Vocês não vão ver os originais”. Eles aceitaram, mas já teve gente que recusou e sobre esses eu não escrevo. Costumo dizer que, nos meus livros, os biografados nem são canonizados nem crucificados. Quando falei ao ACM que ele só veria o livro quando fosse lançado, ele me pediu um tempo para pensar. Depois de 15 dias, ele me ligou e disse: “Vamos começar, eu não tenho nada do que me envergonhar”.

- Em suas conversas com o ACM, ele chegou a comentar sobre o episódio em que teria tido uma incontinência urinária ao ser confrontado pelo deputado alagoano Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta?
Ele disse que era tudo mentira, mas esse é o episódio menos polêmico na vida de ACM.

- Alguma vez você ocultou alguma informação por considerar que iria expor demais o biografado ou personagem?  
Quando estava fazendo “O Mago” me vi em uma contradição. Confesso que fiquei uma semana sem conseguir escrever porque não conseguia decidir se iria ou não contar aqueles segredos tão íntimos de Paulo Coelho. Eu me perguntava: “Será que eu tenho o direito de revelar isso para o mundo?”. Então, minha esposa disse: “Você está querendo impor ao seu leitor uma censura que o próprio Paulo Coelho não fez”. Realmente, Marina estava certa. Eu não tinha esse direito.

- Você tem notícias de como anda o filme “Chatô”?
Encontrei Guilherme Fontes recentemente e, segundo ele, o filme está pronto. Me disse mais, que eu não me espantasse se, ao abrir os jornais, a qualquer momento, estivesse publicado uma notícia de que o filme iria estrear hoje. O que ele me falou é que o filme está guardado em Los Angeles, esperando um “troco” para ser montado. A verdade é que o Guilherme não é esse mal caráter que foi pintado na mídia. Tenho um carinho grande por ele. Acredito nele. Inclusive, sou padrinho da sua filha.

- Como é a sua relação com essas adaptações dos seus livros para o cinema?
Não me meto. O máximo que gosto de fazer é ler os roteiros para ver se não há distorções históricas nem estéticas. Com “Olga”, a experiência foi fantástica. Apesar de escorraçado pela crítica foi adorado pelo público. Para mim, o que importa é o que o filme deu ao livro: a oportunidade de transformar aquilo que apenas alguns letrados viram em um produto assistido por milhões de pessoas.

- E quanto aos novos projetos?
Há conversas em curso, na verdade, uma paquera, com o ex-presidente Lula. Mas correm por fora um livro sobre a morte do presidente João Goulart e uma biografia do antropólogo Darcy Ribeiro.

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